Caderno da crítica

Literatura galega: de todo un pouco; ás veces tamén opinións. Blogue de Ramón Nicolás

Adianto editorial: “Ostrácia”, de Teresa Moure

Fragmento de Ostrácia, de Teresa Moure, por cortesía de Através Editora. En breve nas nosas librarías.

 

Tinha sido ele quem decidira o vinho, quem insistira em pasar pelo Tarasca para o copo. E pelo Avante, e por um par de locais mais, onde todos nos seguiam à medida que a noite se consumia, à medida que a noite anunciava o que haveria depois. Eu apenas bebera uma cerveja. Sempre sou comedida, calculadora, sóbria. O auto-controlo, a disciplina fazem parte natural de mim; libertam-me de toda a escravidão. Sou decididamente leninista. Por isso sempre limito com toda a moderação a comida e a bebida, como também me recuso categoricamente a experimentar qualquer tipo de substância proibida. Sempre levo o controlo; menos com ele. Aí jogo tudo: as aranhas sabem reservar-se para a cama.

Sou uma aranha que está a ser minuciosamente observada e, por isso mesmo, o ventre manda sobre o cérebro. Quando no clímax –o clímax número trinta ou assim– sinto essa imensa vontade de chorar, não é por emotividade. O corpo não suporta mais. As lágrimas caem. E ele afasta-se para dizer:

– Choras agora? Estás como uma cabra!

Rio de mim: é fácil ser bem-humorada no depois. Ponho-me de meio lado, insinuante. Não quero mais e, contudo, preciso de que me veja bela, incitante, provocativa… As aranhas são animais controladores, fechados no seu próprio território, insociáveis, embora as aparências. O observador que se aplicar a estudá-las verá que tecem uma rede para unir tudo, como ativistas de corpúsculos marxistas. É inútil tentar com elas a terna mensagem da democracia. Por muito que procurem apresentar-nos como seres repugnantes, como animais sanguinários que devoram moscas, somos formosas. Construímos obras de arte efémeras, as aranheiras, transparentes e delicadas. Somos artistas da transparencia e da disciplina. Não nos concerne o discurso da horizontalidade tão em moda: as aranhas não assistimos a assembleias. Não acreditamos no ruído. Sabemos que ser aranha é um destino, um fado, que nos torna depredadoras ou depredadas. É por isso que nunca foram vistas três ou quatro aranhas a partilharem um espaço; nem saberíamos como agir num triângulo. Cada uma tem a sua própria missão: a revolução depende de que cada aranha no seu recanto faça uma rede perfeita. Não nos permitimos erros. De pura perfeição, quando amamos, entregamo-nos ao orgasmo múltiplo, tão intensas e exageradas.

Como todas as revolucionárias, as aranhas não temos boa fama. Insistem em dizer de nós que somos caçadoras solitárias, condenadas a devorarmos o que chegar à teia, com exceção, se calhar, das próprias crias. Repetem que a biologia nos programou para traçarmos células de ação autónoma e convocar outras criaturas que ficam presas, com as patinhas tesas na pegajosa trama. Observadores rigorosos testemunham sem provas que no acasalamento a aranha se vê na obrigação de papar o que chegou à teia, para limpá-la, como parte do destino genético, sem sentimentalismos. Nada disso é certo. Apesar da nossa obstinação militante, não escolhemos. Somos escolhidas por algum animalucho, que se atreve a entrar no nosso território, previamente marcado: tecêramo-lo nós mesmas, inconscientemente, segregando com paciência os fios. Amamos com profundidade esse que nos escolheu. Abraçamos, beijamos…, entregamo-nos. O problema é que esta aranha não contava com que também pudesse vir transar com ela um cientista, com o único objetivo de aumentar o seu ego. Os cientistas fazem todas as atividades duma maneira fria, rigorosa, sistemática. Não é estranho que agora o meu observe e anote no seu caderninho quanto pode gozar uma aranha –dará um cálculo exato se não faço antes rebentar os aparelhos de medida– nem que se levante e feche cuidadosamente a porta do terraço: estará a verificar se a mudança da temperatura pode afetar o meu comportamento.

– Não feches! –Protesto com voz mimosa– Vai muito calor.

– Por isso mesmo. Vais ver.

E nos minutos seguintes afogarei. Perderei seis patas para ficar com a vulgar silhueta duma mulher, eu que antes era pura matéria aracnídea. Afogarei sem dar por isso, porque não entra já o luar no quarto repentinamente escurecido. Afogarei sentindo como me ocupa: carne escorregadia que sonha ser eterna. Não importa se me despreza: namoro.

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Esta entrada foi publicada o 16 Setembro 2015 por en Adianto editorial,Narrativa , , .

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