Caderno da crítica

Literatura galega: de todo un pouco; ás veces tamén opinións. Blogue de Ramón Nicolás

Adianto editorial: “Seique”, de Susana Sánchez Arins

Por cortesía de Através Editora Caderno da crítica incorpora un fragmento pertencente ás páxinas iniciais de Seique, de Susana Sánchez Arins (fotografía da autora na páxina de inicio de Eduardo Castro Bal; cuberta de Rosa Herraiz Cabanas). En poucas datas nas nosas librarías.

efemérides

meu pai nasceu em 1949, ao ano de ser abolido o estado de guerra. a minha mãe veio ao mundo em 1952 e ainda os máquis andavam no monte. a guerra aparecia-se remota, mas estava aí.

e aí continua.

costuras

desconheço a história ao completo. só recordo, de maneira luzidia, isso sim, farrapos dela. nem sequer farrapos dela, mas dos contos que sobre a história contava a avó glória, ou das es­tórias que mal-lembra casilda contadas pola tia ubaldina. como estabelecer as ligações entre um retalho e outro? qual o ponto de costura? por onde é que corto o género? enfim, com que tecido trabalhar? qual o desenho certo?

há imagem certa?

arquitetura familiar

venho de uma família edificada em morrinhas, em nostalgias dos tempos idos.

a avó glória sempre a falar de quando a casa grande de porta­ris, de como era feliz antes de acontecer o acontecido. mamã sempre a contar da família, do importante que era, que até es­cudo e gótica casa de pedra em vigo tínhamos. a tia pilar sem­pre a lembrar aquela nenez na casa de um seu tio, que era mui fino e, em verdade, rico.

venho de uma família edificada em raiva, porque a míngua que vivia não era merecida. se não fosse o tio manuel, portaris seria nosso, se não fosse aquela peleja, continuaríamos a ter do­mingos e parentes, se não fosse a guerra, viveria em redondela.

ai, se não fosse…

o retrato

o tio manuel aparece na desacompanhada foto de família que conservava a minha avó. o tio manuel era um dos seus irmãos mais velhos, sendo ela a mais nova. eram treze, fora os morri­dos. por isso, na fotografia, a minha avó está aos pés do meu bisavô e conta só dous aninhos de idade. o tio manuel aparece direito e teso, num dos cantos exteriores do papel. ainda que os meus bisavôs repousam no centro da imagem, como em real trono, quem preside o quadro é o tio manuel. porque tem por­te. e acompanha essa presença majestosa de fato branco e cha­péu branco e sapatos brancos. tal se fosse um indiano.

o resto de irmãos e irmãs, até treze, fora os morridos, e mesmo meus bisavôs, em seu trono real, parecem os criados pobres do tio manuel, os caseiros que lhe lavram os campos, as lavan­deiras que lhe clareiam a prístina roupa, as amas de cria que amamentaram a minha avó.

sempre ao serviço do senhor.

portaris

o capital de portaris era muito, entre prados, estivadas, carva-lheiras, searas, eiras de pão e monte do que baixavam carros e carros de estrume. dizia-se que portaris tinha um ferrado por cada dia do ano e que contava com, quando menos, trinta caseiros. não havia almoço na semana sem, no mínimo, dous cregos à mesa.

refraneiro

o crego onde canta, janta.

tudo isto foi nosso

um dia meu irmão acompanhou o tio josé a tornar a água. su­bindo ao alto do mosteiro, onde estava o poço e nasciam os regos, olhou para onde lhe indicava o tio e atendeu às suas palavras:

–tudo quanto vês no horizonte –e apontou cara o norte– foram terras de portaris. acabada a frase, pousou-lhe a mão no om­bro, tal como nos filmes de cavalarias e do farwest, e contem­plaram o sol-pôr.

areias

o capital de areias era muito, entre prados, estivadas, carvalhei­ras, searas, eiras de pão e monte do que baixavam carros e ca­rros de estrume. dizia-se que areias tinha um ferrado por cada dia do ano e que contava com, quando menos, trinta caseiros. não havia almoço na semana sem, no mínimo, dous pobres à mesa e gentes de pedir e operários sem trabalho e doentes.

manuel gonzález fresco sempre tinha as portas da sua casa abertas e ninguém saía dela com as mãos baldeiras.

a doença

durante anos, nas visitas dos domingos à casa de ceia, a avó glória comunicava a meu pai: o tio manuel está mui mal, pode que não passe do natal. e passava o natal e chegava um novo domingo. o tio manuel está mui mal, pode que não passe da páscoa; e a páscoa chegava e passava.

nalgum desses lutuosos avisos da avó arribava o rumor. morre morre, mas não acaba de morrer. seique aguenta a copinhos de canha, afirmava a velha com voz de menina retranqueira. a má erva não há geada que a leve, deixava cair alguém da família, indefetivelmente, cada domingo.

e aí ofendia-se a avó glória:

–chissst! um respeito! bom nunca foi, mas eu não lhe desejo a morte.

e quem morria era a conversa. até o domingo seguinte chegar acompanhado da frase de sempre.

o tio manuel está mui mal, pode que não passe do sanjoão.

o mal do peito

versão 1 (mais extravagante e ciganeira): um dia o bisavô foi à feira a cambados e quando voltou à casa mandou empacotar tudo porque mercara terras na banda do mar, que seique da­vam melhores hortas e fruiteiras.

versão 2 (mais assisada e tediosa): ao velho entrou-lhe o mal do peito. vendeu tudo em cervanha e mercou terras novas, pola banda do mar, para poder ir tomar as águas à toja mais amiú­de, que seique eram boas e o faziam tossir menos e não afogar em espasmos diafragmáticos.

Advertisements

Información

Esta entrada foi publicada o 14 Outubro 2015 por en Adianto editorial,Literatura galega , , .

Páxinas

Categorías

Arquivo

%d bloggers like this: